quinta-feira, dezembro 23

Imagem

A vida não é feita só de palavras. Aliás, a vida deve ser feita de muitas coisas, mas o que quero dizer agora é que a partir de agora tenho um fotolog. O link está acima, ali onde diz "Imagem", só clicar em cima. Bom, só para não deixar muito sem graça isso daqui - como se já não o fosse sempre - abaixo segue um poema que recebi. Quintana sempre!

Seiscentos e sessenta e seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Mario Quintana (Esconderijos do Tempo)

quarta-feira, dezembro 15

O pulso ainda pulsa

Sinto-me perdido.
Sinto-me só.
Sinto uma placa de ferro nas costas.
Sinto grilhões amarrando meus braços,
minhas pernas
à insípida realidade.
Sinto sangue escorrendo de cada poro,
das narinas,
da boca.
Sinto um negror invadindo meus olhos.
Uma náusea sobe à boca.
Uma ânsia.
Sinto a dor da inércia.
Sinto o fervilhar da boca do estômago
pronto a explodir.
Sinto muito.
Pelo menos ainda sinto.

E o corpo, ainda é pouco

quarta-feira, dezembro 8

Fazendo nada

Por que todo mundo nos pergunta o que temos feito? Essa é uma pergunta universal nas conversas das pessoas? Confesso que não sei, não tenho o hábito de conversar muito. Ela até não é muito incomodativa, o pior é quando a pessoa fica tentando adivinhar: E aí, estudando muito?, Não, Trabalhando então?, Ainda não, Então deves estar lendo bastante, Nada extraordinário, Ah, o negócio então é estar curtindo a vida?, Não, estou arquitetando um plano para matar o presidente, estou atuando em filmes pornô, porra, por que tanta pergunta?, parece que realmente existe interesse. Mas é pura ilusão. Em dois ou três minutos o interlocutor já esqueceu de qualquer coisa que tenhas dito. Porém, digamos que realmente todos aqueles que perguntam sobre as atividades correntes queiram, por algum motivo desconhecido, saber. Por que é tão importante estar fazendo alguma coisa? O indivíduo não pode simplesmente não estar fazendo nada? Isso assusta, temos de ficar sempre em movimento, caminhando, correndo, voando. É a utilidade. Não podemos simplesmente ser inúteis; ainda que não façamos nada em prol do social, que não estejamos trabalhando em uma empresa ou em uma causa, se estamos nos aprimorando, ou refletindo, enfim, fazendo algo para nós mesmos, estamos fazendo algo. Agora, fazer nada é proibido. Não é visto como algo comum, normal. É estranho, inconcebível para aqueles que conciliam cem atividades por dia, excluindo respirar e bombear o sangue, dessas o organismo encarrega-se. Então, a questão até parece fazer sentido. Até a tentativa de adivinhação é aceitável. Quem respira ar acha que o outro faz o mesmo. Não, não é sempre assim. Não estou fazendo nada. Nada!

Antiqüíssimos versinhos bobos

Amarelos, saltam os dentes por entre os lábios.
O rosto enruga-se, a testa franze
dois outeiros elevam-se, maçãs-do-amor.
Mas os olhos...
- O que há com os olhos?
Não sorriem, ignoram o rosto contraído.
Isolam-se em pequenas torres de amargura.

quinta-feira, dezembro 2

Ambigüidade

Não consigo estabelecer minha idade. Pelo menos a mental, para mim não há como. Ontem fui a uma peça de teatro (sozinho, como sempre), e a média de idade do público era apenas quarenta anos maior do que a minha. Quarenta anos. Claro, havia mais um ou dois "jovens". De resto, só os mais vividos. E não foi apenas nessa ocasião. Freqüento um ciclo de palestras sobre os "autores malditos", poetas franceses do XIX. Já passaram Rimbaud e Verlaine, e para fechar com chave de ouro a próxima será sobre Baudelaire. Mas isso não importa. O fato é que lá também sou o mais novo, muito mais novo. Isso me estranha um pouco. Apreciar esse tipo de coisa, quando o que parece é que eu tinha de estar no shopping, ou na Lima, ou sei lá onde, com "gente da minha idade". Bom, chega dessa divagação. Até aí tudo bem, poderia dizer que tenho um espírito velho. Mas como explicar então eu passar dois dias lendo Alice e não conseguir segurar o sorriso, a gargalhada. No ônibus, numa fila, deitado na cama. Está certo que, como diz na contracapa, não é apenas para crianças. Mas como explicar o Bob Esponja? Não sei. Assim como a personagem de um livro que provavelmente não vou ler, pareço variar dos oito aos oitenta, em menos de minutos. Sexta tenho mais um encontro com um poeta francês. Alice através do espelho já me encara da estante. Ambigüidade.