sexta-feira, março 4

outubro, 2004

Eu sou
o apóstata da dor,
nos sonhos rasgo papéis
um dia algo importantes,
fiéis num instante, noutro
não mais.
E penso frio que me enregelo
nas mantas covardes da
tua existência vã.
Coloco à inteira disposição
de esclarecer o que já é límpido,
trevar o que é sem efeito,
o paladar insensível da morte.
E tento escrever sem sentido,
dar colorido ao descolorido,
mentir a verdade fatal
sobre a qual construo edifícios
de ouro e concreto maciços,
vigas visíveis do viver vão e vago e volúvel.
Na hora morta que nasce do silêncio
puxo um senso de humor sutil
e escolho tanger o espírito
ao invés de penetrá-lo e encontrá-lo
nu.

outubro, 2004

A cabeça tórrida do dragão cospe fogos mentirosos. Eu sou um mártir, mas meu retrato nem vale a moldura. O pescoço dança com pessoas recém saídas de um estado putrefato de abjuração. O dragão não colocou suas leis no mundo assim, sem nenhum compromisso. Ele pensou durante a eternidade, que é exatamente o tempo necessário para fazer alguma qualquer coisa que movimente o céu que movimente a terra que movimente o homem. Os planaltos sucedem-se sem pássaros para o regozijo infame do ouvido interno que escuta muito melhor que o externo porque escuta o céu e o inferno. Um dia há uma cachoeira que caia de um nada para uma galáxia de coloração verde e verde não é a cor da esperança nem da natureza é a cor que não é azul, vermelha, amarela. É branca. Foi o prisma quem me indicou o caminho da ascensão prática ao mundo do mundo superior, que não só não é superior como nele não há possibilidade de imaginação, pois tudo que se pensa é real, e o real é tudo que se quer (consciente e inconscientemente). O homem não foi feito para chegar à sua realização completa, ele foi feito – talvez por ele mesmo – para tentar infinita, e infinita e infinitamente. Se um dia, ou porventura uma noite o homem, ou porventura a mulher alcançar o estado pleno que é no fim do caminho, esse estado que é superior sem sê-lo, em que não existe mais imaginação nem ficção nem literatura nem ciência, um mundo onde o inverdadeiro existe de tal modo que auxine o que de resto não o for, se um dia alguém alcançar essa mentira, será atirado na vala comum dos loucos que não entraram para a história.