eu cheguei cedo. ele veio mais tarde. comecei, e ele já se sentou. está ao meu lado. enquanto aperto botões, ele espreita meu serviço, para certificar-se de que nada saia errado. não que eu já tenha feito algo que pudesse deixá-lo assim. ele simplesmente desconfia, como desconfiamos todos. ele agora finge estar usando o computador. dissimulado. enquanto eu sou obrigado a assistir à televisão, ele, que não é obrigado, assiste a mim. e não me assiste. ensaio ir embora, mas a noite é longa e seus olhos perseguem até minha sombra. por trás daquelas lentes ele deve ver tudo ampliado, desde a minha respiração sôfrega até minha vontade de ir embora, de deixá-lo só. mas ele não se importa. ele quer que eu saia quando a sineta tocar. e não há sineta. há um relógio que marca um tempo de anos. cada segundo é um passo em direção à liberdade, mas ele sufoca minha vontade a ponto de congelar os ponteiros. sufoca a ponto de deixar-me constrangido, quieto. realmente amedrontado. sequer viro-me em sua direção. mas sinto sua respiração forte, além de um grande olho pesadamente vigilante. quero apenas deixá-lo só. mas ele não quer que eu desapareça. detesta minha silenciosa companhia, e mesmo assim insiste com sua boca enorme, virada em enormes beiços, para que eu fique. talvez seja medo da solitária madrugada. duvido. de qualquer forma, que tenho eu com isso? as minhas madrugadas não quero transformadas em tédio, ainda mais a seu lado. quero de novo e para sempre liberdade. estou pensando em girar a cadeira uns cento e oitenta graus. olhá-lo de frente, tocar com o gelo dos meus olhos a violência repressora que finge-se indiferente. mas sinto medo. não apenas dele, que ele é como uma câmera a me vigiar, e câmeras podem ser muito facilmente destruídas. receio a mim mesmo. se encará-lo, sou capaz de enfiar outra coisa através de suas lentes que meu olhar, por penetrante que seja. já havia notado uma caneta ao meu lado. posso jurar que a sinto afiada, e a sinto com os olhos, que é mais que o tato. poderia ser rápido. e simples. não digo indolor porque não sei. mas gostaria que não fosse. ouço-o tossir de forma virulenta. é provocação, só pode ser. ou então pode ser que essa maldita máquina humana esteja demonstrando seu fraco. talvez seja a hora de atacar, invadir o castelo. aperto mais uns botões e espero que ele baixe a guarda novamente. então o esfaqueio. ou melhor, o caneteio, que é o mesmo, pois a minha raiva pode transformar esse simples e pacífico objeto na mais letal arma. mas sua respiração mudou. está mais lenta. nem sinto mais os olhos dele em cima de mim. talvez esteja dando o braço a torcer, e queira deixar de animosidades. mas pode ser um truque. vou pegar a caneta com as minhas mãos suadas e virar-me, e dependendo do que ele fizer, cravo-a nos seus olhos, ou onde conseguir. é agora. não, tenho de apertar mais esse botão. já me sinto mais calmo. aliviado. sequer o ouço, embora ainda o saiba ali. meu deus, não é hora de fraquejar. estava quase conseguindo. é melhor desistir. afinal, se cumpro meu desejo, talvez tenha de ficar aqui até ouvir os primeiros galos cantarem. pela televisão, claro, que estou tão isolado do resto do mundo que nem sei se é dia ou noite, a não por aquele maldito relógio que pende sobre minha cabeça. ei, espera. já é quase hora. em minutos estarei livre dessa maldita condição. poderei, com a consciência limpa, honestamente, deixá-lo aqui e ir-me embora. levanto-me, ainda de costas. ah, se ele falar qualquer coisa. não deixo nem a boca reagir, dou ordens diretamente à mão, ela que faça o serviço. mas ele está quieto. pego minhas coisas. sem vê-lo, digo "estou indo". a mão está nervosa, e o suor já empapa a camisa. receoso, passo a encará-lo. plácido, deseja-me boa noite. no seu rosto fechado vislumbro um sorriso secreto, algo quase imperceptível. pergunto-me o que estaria pensando. em suas mãos, além de muito suor, enxergo o fio do mouse enrolado. o rosto, pensando melhor, não é sorriso de vênia. é sorriso de alívio, como o meu. essa noite já acabou para mim. mas amanhã tem mais.
quinta-feira, janeiro 20
segunda-feira, janeiro 17
Sonhei...
Sonhei – não estava dormindo – que caminhava vagarosamente em um corredor não muito claro, com poucas lâmpadas – todas fluorescentes. A parede não era escura, tinha tons ora creme, ora branco, ora esverdeado. Era limpa, nenhum quadro, nenhuma estante, nenhum prego quebrava a planeza da superfície, exceto algumas portas. Eram várias, e estavam todas abertas. Ao olhar para seus interiores, apesar de não estar escuro, eu não conseguia enxergar nada. Por alguma razão – ou não-razão – o conteúdo de cada porta era para mim irreconhecível. E por algum motivo – ou desmotivo – eu não conseguia passar pelas portas sem que elas me perturbassem, sentia como algo estivesse errado. E fechava as portas, quase todas elas. Algumas eu ia fechando lentamente, e ia sentindo-as fecharem-se, e de alguma forma eu sentia que estava fechando-me para elas. Outras portas eu fechava normalmente, mecanicamente como quem abre os olhos pela manhã e os fecha à noite (não necessariamente manhã e noite). Havia ainda – sim, havia!-, existiam algumas portas que eu não conseguia suportar abertas, causavam-me um asco, uma repugnância tal que eu as batia fortemente, com ódio, com nojo.
O labirinto em linha reta nunca terminava, e eu seguia caminhando sobre aquele tapete que não era vermelho-fama, mas uma mistura alucinante de formas e cores, sóbrias e sombrias, alegres e aleatórias. Ora eu pisava direito, ora esquerdo, ora com um tênis velho, ora com sapatos engraxados, ora descalço.
Pensei algumas vezes vencer meu medo, injetar coragem nas minhas veias e espalhá-la na minha corrente sanguínea, de modo a percorrer meu cérebro, meu peito, meus quadris, e finalmente minhas pernas, fazendo-as sair do tapete, levando-me consigo. Mas o medo não deixava, um receio de entrar na porta errada, ou descobrir que a sala estava vazia, ou cheia demais, aterrorizou-me de tal modo que só em pensar já sentia um calafrio em cada centímetro cúbico do meu corpo.
Continuei andando, caminhando em silêncio e fechando quase todas as portas, algumas eu deixava abertas, nunca se sabe. Uma, em especial, chamou minha atenção, como estivesse gritando. Ela encontrava-se entreaberta e, como sabendo-me próximo, fechou-se subitamente. Levei as mãos a ela, empurrei-a, mas nada dela abrir-se. Girei a maçaneta, mas a porta parecia trancada, e trancada por dentro. Haveria alguém ali? Seria aquela A porta?
Desviei meu olhar para o corredor. Desorientado pelos meus pensamentos, não sabia de qual direção eu vinha, nem para qual eu iria. Decidi então que aquela era a porta por onde eu entraria e mudaria de rumo. Mas ela estava fechada, única e fechada. Comecei a forçá-la, a torcer violentamente a maçaneta, e nada. Dei empurrões na porta, e nada. Tentei tomar alguma distância, mas o corredor parecia mais e mais estreito, e nada.
Desesperado, comecei a chorar, primeiro timidamente, e em seguida estava em prantos, tendo convulsões, até que a tristeza deu lugar à náusea, e as lágrimas transformaram-se em vômito, morno e fétido. Perdi então a consciência por poucos segundos, e quando a recobrei estava sentado no tapete, eu, mais uma forma e uma cor sobre o tapete. Misturado às lágrimas e ao vômito notei algo brilhar, um reflexo da luz fluorescente nas minhas retinas. Pus a mão, senti aquilo já frio, com uma consistência indefinida, e encontrei algo que se parecia com uma chave. Sem hesitar, atirei-a logo na fechadura, e não precisou mais para que a porta se abrisse.
Quando a porta se abriu, o que restava da minha esperança se estilhaçou. Tive a mesma sensação que em todas as outras portas.
Quando a porta se abriu, o que restava da minha esperança se estilhaçou. Tive a mesma sensação que em todas as outras portas.
Mesmo assim decidi arriscar, e com muito esforço, como quem verga o corpo a fim de sustentar o lar, passei com o corpo inteiro através da moldura. De repente, escuridão. Mesmo olhos abertos, não via absolutamente nada. Tampouco escutava ou sentia cheiro algum. Aos poucos foi tudo se tornando nítido para meus sentidos, e foi tudo tão consciente, tão bizarro que achei e não achei que fosse real.
Quando finalmente pude enxergar, virei para trás em direção aonde eu havia entrado. Não havia mais uma porta, mas, do mesmo modo, a parede também não encontrava-se limpa. Entre quatro caixilhos de madeira, protegida por um fino mas consistente vidro, estava uma pintura, ou uma fotografia, não pude decifrar, apenas consegui visualizar alguns detalhes.
No chão, o tapete havia mudado, agora ele era monocromático, possuía uma única cor indistinguível.
Curioso, virei-me por completo, e o que vi deixou-me assustado. Com paredes de outras cores, outros tipos de portas, outras lâmpadas, o mesmo corredor longo tomou conta da minha visão, e ele parecia maior, parecia mais que infinito, pois além de portas novas também possuía algumas já conhecidas.
Desesperado, lembrei que estava num sonho e tentei acordar. Mas, como disse, não estava dormindo.
domingo, janeiro 2
Tenho muito pouco o que escrever. É estranho. A escrita deveria ser utilizada somente para transmitir alguma informação. No entanto, escreve-se qualquer coisa, basta caneta, papel ou um teclado (ligado ou não a um monitor). Eu escrevo qualquer coisa, e leio também o que atravessar meu campo de leitura – um pouco menos amplo que o de visão. Mas ultimamente não consigo escrever o que vem à mente. Não tenho podido externar-me, ou melhor, pôr-me em palavras. Falta algo. Falta informação, falta o que escrever, sinto a ausência de conteúdo. Tento sair buscando, pergunto-me onde estão as palavras. Ou melhor, qual o paradeiro das idéias?, afinal são estas a cola que dá unidade e coerência àquelas. Estariam nos livros que não estou lendo? Ou na realidade que não vivo? Não tenho a menor idéia. Mas vou continuar correndo atrás, quem sabe encontro uma motivação, algo que consiga tecer, com o fio das idéias, uma casaca azul de palavras. Enquanto isso, encho lingüiça refletindo sobre o meu não-fazer, o ato de não-escrever.
Voltaire
Já que não consigo mais escrever, vivo de citações. Neste caso, um conto inteiro de Voltaire, um achado na internet. Deliciem-se com esse gênio satírico.
O CARREGADOR ZAROLHO - Voltaire
Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condição; serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. Muita gente possui o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo; eis por que há tantas pessoas que prefeririam ser cegos a ver, tudo o que vêem. Felizes os zarolhos que só são privados desse olho mau que estraga tudo quanto a gente olha! Era o caso de Mesrour.
Seria preciso ser cego para não ver que Mesrour era zarolho. Era-o de nascença; mas era um zarolho tão satisfeito com a sua condição que jamais se lembrara de desejar outro olho. Não eram os dons da fortuna que o consolavam dos malefícios da natureza, pois não passava de um simples carregador e não tinha outro tesouro senão os seus ombros; mas era feliz, e mostrava que mais um olho e menos trabalho pouco contribuem para a felicidade. O dinheiro e o apetite lhe vinham sempre em proporção com o exercício que fazia; trabalhava de manhã, comia e bebia de tarde, dormia de noite, e considerava cada dia como uma vida à parte, de modo que a preocupação do futuro jamais lhe perturbava o gozo do presente. Era (como o vedes) ao mesmo tempo zarolho, carregador e filósofo.
Viu por acaso passar numa suntuosa carruagem uma grande princesa que tinha um olho mais do que ele, o que não o impediu de achá-la muito bela, e, como os zarolhos não diferem dos outros homens senão em que têm um olho de menos, apaixonou-se perdidamente pela princesa. Dirão talvez que, quando se é carregador e zarolho, o melhor é a gente não se apaixonar, principalmente por uma grande princesa e, o que é mais, uma princesa que tem dois olhos; no entanto, como não há amor sem esperança, e como o nosso carregador amava, ousou esperar.
Tendo mais pernas que olhos, e boas pernas, seguiu durante quatro léguas o carro da sua deusa, que seis grandes cavalos brancos puxavam velozmente. Era moda, naqueles tempos, entre as damas, viajar sem lacaios e sem cocheiro, conduzindo elas próprias o carro; queriam os maridos que elas andassem sempre sozinhas, para ficar mais seguros da sua virtude; o que é diametralmente oposto ao parecer dos moralistas, que dizem que não há virtude na solidão.
Mesrour continuava a correr junto às rodas do carro, voltando seu olho bom na direção da dama, espantada de ver um zarolho com tamanha agilidade. Enquanto ele provava assim o quanto se é infatigável quando se ama, um animal selvagem, perseguido por caçadores, atravessou a estrada, espantando os cavalos, que tomaram o freio nos dentes e já arrastavam a bela para um precipício. Seu novo apaixonado, ainda mais assustado do que ela, embora a princesa o estivesse bastante, cortou as correias com maravilhosa habilidade; somente os seis cavalos deram o salto mortal, e a dama, que não estava menos branca do que eles, apenas passou por um grande susto.
— Quem quer que sejas – disse-lhe ela; – jamais esquecerei que te devo a vida; pede-me o que quiseres: tudo o que tenho está a teu dispor.
— Ah! com muito mais razão – respondeu Mesrour – posso eu oferecer-vos outro tanto; mas, assim fazendo, sempre vos oferecerei menos; pois só tenho um olho, e vós tendes dois; mas um olho que vos contempla vale mais que dois olhos que não vêem os vossos.
A dama sorriu: pois as galanterias de um zarolho são sempre galanterias; e as galanterias sempre fazem sorrir.
— Eu desejaria dar-te um outro olho – disse ela – mas só a tua mãe podia dar-te esse presente; mas continua a acompanhar-me.
Dizendo essas palavras, desce ela do carro e prossegue o caminho a pé; seu cãozinho também desceu e marchava ao lado da dona, ladrando para a estranha figura do seu escudeiro. Faço mal em lhe dar o título de escudeiro, porque, por mais que ele lhe oferecesse o braço, não quis a dama aceitá-lo, sob o pretexto de que o braço estava muito sujo; e ides ver agora como a princesa foi vítima de seu próprio asseio. Tinha ela uns pequeninos pés, e uns sapatinhos ainda menores, de maneira que não era feita para longas caminhadas, nem estava devidamente calçada para isso.
Lindos pezinhos consolam de ter pernas débeis, quando se passa a vida numa espreguiçadeira, em meio de uma porção de peralvilhos; mas de que servem sapatos bordados e lantejoulados em um caminho pedregoso, onde só podem ser vistos por um carregador e, ainda por cima, por um carregador que só tem um olho?
Melinade (é este o nome da dama, que tive minhas razões para calar até agora, visto que ainda não fora inventado), Melinade avançava como podia, amaldiçoando o seu sapateiro, escorchando os pés, e dando um mau jeito a cada passo. Fazia hora e meia que ela marchava como as grandes damas, isto é, já fizera perto de um quarto de légua, quando tombou de fadiga.
Mesrour, cujos serviços ela recusara enquanto estava de pé, hesitava em lhos oferecer, por medo de a macular com o seu contato; pois bem sabia que não estava limpo (a dama claramente lho dera a entender), e a comparação que fizera em caminho entre a sua pessoa e a da sua amada ainda lho mostrava com maior clareza. Tinha ela um leve vestido cor de prata, semeado de guirlandas, que lhe ressaltava a beleza do talhe; e ele, um blusão pardacento, todo manchado, rasgado e remendado, e de tal maneira que os remendos ficavam ao lado dos buracos e não por baixo, onde estariam mais no seu lugar. Havia comparado as suas mãos musculosas e cobertas de calos com as duas pequenas mãos mais brancas e delicadas do que lírios. Vira enfim os lindos cabelos loiros de Melinade, que se entremostravam através de um véu de gaze, penteados em tranças e cachos; e ele, para colocar ao lado disso, não tinha mais que umas eriçadas crinas negras, cujo único ornamento era um turbante roto.
No entanto Melinade tenta erguer-se, mas tomba em seguida, e tão desastradamente, que o que ela deixou ver a Mesrour tirou-lhe o pouco de razão que a vista de seu rosto pudera deixar-lhe. Esqueceu que era carregador, que era zarolho, e não mais pensou na distância que a fortuna pusera entre ambos; mal se lembrou que amava, pois faltou à delicadeza que dizem inseparável de um verdadeiro amor, e que às vezes lhe constitui o encanto, e muitas vezes o aborrecimento; serviu-se dos direitos à brutalidade que lhe dava a sua condição de carregador; foi brutal e feliz. A princesa, então, estava, sem dúvida desmaiada, ou lamentava a sua sorte; mas, como tinha um espírito justo, abençoava decerto o destino pelo fato de todo infortúnio trazer consigo o seu próprio consolo.
A noite estendera os véus no horizonte, e ocultava na sua sombra a verdadeira felicidade de Mesrour e a pretensa desgraça de Melinade; Mesrour desfrutava os prazeres dos perfeitos amantes, e desfrutava-os como carregador, quer dizer (para vergonha da humanidade) da maneira mais perfeita; os desmaios de Melinade voltavam-lhe a cada momento, e a cada momento o seu amante recuperava forças.
— Poderoso Maomé – disse ele uma vez, como homem arrebatado, mas como péssimo católico, – só o que falta à minha felicidade é ser sentida por aquela que a causa; enquanto estou no teu paraíso, divino profeta, concede-me ainda um favor, o de ser para os olhos de Melinade o que ela seria para os meus olhos, se houvesse luz.
Acabou de rezar e continuou a gozar. A aurora, sempre demasiado diligente para os amantes, surpreendeu a ambos na atitude onde ela própria poderia ter sido surpreendida um momento antes, com Titono. Mas qual não foi o espanto de Melinade quando, abrindo os olhos aos primeiros raios do dia, viu-se num lugar encantado, com um homem de nobre estrutura, cujo rosto se assemelhava ao astro cuja volta a terra aguardava! Tinha faces de rosa, lábios de coral; seus grandes olhos, ao mesmo tempo ternos e vivos, exprimiam e inspiravam volúpia; seu carcaz de ouro, ornado de pedrarias, pendia-lhe do ombro e só o prazer fazia ressoar as suas flechas; sua longa cabeleira, presa por um atilho de diamantes, flutuava-lhe livremente sobre os rins, e um tecido transparente, bordado de pérolas lhe servia de veste, sem nada ocultar da beleza do seu corpo.
— Onde estou, e quem és – exclamou Melinade no auge da surpresa.
— Estais – respondeu ele – com o miserável que teve a ventura de vos salvar a vida, e que tão bem cobrou o seu trabalho.
Melinade, tão satisfeita quanto espantada, lamentou que a metamorfose de Mesrour não tivesse começado mais cedo. Aproxima-se de um magnífico palácio que lhe atraíra o olhar e lê esta inscrição na porta: “Afastai-vos, profanos; estas portas só se abrirão para o senhor do anel.” Mesrour aproxima-se por sua vez para ler a mesma inscrição, mas viu outros caracteres e leu estas palavras: “Bate sem receio.” Bateu, e em seguida as portas se abriram por si mesmas com fragor. Os dois amantes entraram, ao som de mil vozes e de mil instrumentos, num vestíbulo de mármore de Paros; dali passaram para uma sala soberba, onde os esperava há mil duzentos e cinqüenta anos um festim delicioso, sem que nenhum dos pratos houvesse esfriado: puseram-se à. mesa e foram servidos cada um por mil escravas da maior formosura; a refeição foi entremeada de concertos e danças; e, quando terminou, todos os gênios vieram, na maior ordem, em diferentes grupos, com vestuários tão suntuosos quão singulares, prestar juramento de fidelidade ao senhor do anel, e beijar o dedo sagrado que o carregava.
Ora, havia em Bagdad um muçulmano muito devoto que, não podendo ir lavar-se na mesquita, fazia a água da mesquita vir à sua casa, mediante uma pequena retribuição que pagava ao sacerdote. Acabava ele de fazer a quinta ablução, a fim de se preparar para a quinta prece. E a sua criada, rapariga estouvada e muito pouco devota, desembaraçou-se da água santa lançando-a pela janela. A água caiu sobre um infeliz profundamente adormecido junto a um marco que lhe servia de apoio. Acordou-se com o choque. Era o pobre Mesrour que, voltando do seu passeio encantado, perdera na viagem o anel de Salomão. Deixara as soberbas vestes e retomara o seu blusão; seu belo carcaz de ouro havia-se transformado num porta-fardos de madeira e, para cúmulo da desgraça, tinha deixado um dos olhos no caminho. Lembrou-se então de que bebera na véspera grande quantidade de aguardente, que lhe adormentara os sentidos e aquecera a imaginação. E Mesrour, que até aquele instante amara essa bebida por gosto, começou a amá-la por gratidão, e voltou alegremente ao trabalho, resolvido a empregar o salário daquele dia na aquisição dos meios para tornar a ver a sua querida Melinade. Qualquer outro ficaria desolado de ser um mísero zarolho depois de ter tido dois lindos olhos; de sofrer as recusas das varredeiras do palácio depois de haver gozado os favores de uma princesa mais bela do que as amantes do califa; e de estar a serviço de todos os burgueses de Bagdad depois de haver reinado sobre todos os gênios; mas Mesrour não possuía o olho que vê o lado mau das coisas.
O CARREGADOR ZAROLHO - Voltaire
Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condição; serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. Muita gente possui o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo; eis por que há tantas pessoas que prefeririam ser cegos a ver, tudo o que vêem. Felizes os zarolhos que só são privados desse olho mau que estraga tudo quanto a gente olha! Era o caso de Mesrour.
Seria preciso ser cego para não ver que Mesrour era zarolho. Era-o de nascença; mas era um zarolho tão satisfeito com a sua condição que jamais se lembrara de desejar outro olho. Não eram os dons da fortuna que o consolavam dos malefícios da natureza, pois não passava de um simples carregador e não tinha outro tesouro senão os seus ombros; mas era feliz, e mostrava que mais um olho e menos trabalho pouco contribuem para a felicidade. O dinheiro e o apetite lhe vinham sempre em proporção com o exercício que fazia; trabalhava de manhã, comia e bebia de tarde, dormia de noite, e considerava cada dia como uma vida à parte, de modo que a preocupação do futuro jamais lhe perturbava o gozo do presente. Era (como o vedes) ao mesmo tempo zarolho, carregador e filósofo.
Viu por acaso passar numa suntuosa carruagem uma grande princesa que tinha um olho mais do que ele, o que não o impediu de achá-la muito bela, e, como os zarolhos não diferem dos outros homens senão em que têm um olho de menos, apaixonou-se perdidamente pela princesa. Dirão talvez que, quando se é carregador e zarolho, o melhor é a gente não se apaixonar, principalmente por uma grande princesa e, o que é mais, uma princesa que tem dois olhos; no entanto, como não há amor sem esperança, e como o nosso carregador amava, ousou esperar.
Tendo mais pernas que olhos, e boas pernas, seguiu durante quatro léguas o carro da sua deusa, que seis grandes cavalos brancos puxavam velozmente. Era moda, naqueles tempos, entre as damas, viajar sem lacaios e sem cocheiro, conduzindo elas próprias o carro; queriam os maridos que elas andassem sempre sozinhas, para ficar mais seguros da sua virtude; o que é diametralmente oposto ao parecer dos moralistas, que dizem que não há virtude na solidão.
Mesrour continuava a correr junto às rodas do carro, voltando seu olho bom na direção da dama, espantada de ver um zarolho com tamanha agilidade. Enquanto ele provava assim o quanto se é infatigável quando se ama, um animal selvagem, perseguido por caçadores, atravessou a estrada, espantando os cavalos, que tomaram o freio nos dentes e já arrastavam a bela para um precipício. Seu novo apaixonado, ainda mais assustado do que ela, embora a princesa o estivesse bastante, cortou as correias com maravilhosa habilidade; somente os seis cavalos deram o salto mortal, e a dama, que não estava menos branca do que eles, apenas passou por um grande susto.
— Quem quer que sejas – disse-lhe ela; – jamais esquecerei que te devo a vida; pede-me o que quiseres: tudo o que tenho está a teu dispor.
— Ah! com muito mais razão – respondeu Mesrour – posso eu oferecer-vos outro tanto; mas, assim fazendo, sempre vos oferecerei menos; pois só tenho um olho, e vós tendes dois; mas um olho que vos contempla vale mais que dois olhos que não vêem os vossos.
A dama sorriu: pois as galanterias de um zarolho são sempre galanterias; e as galanterias sempre fazem sorrir.
— Eu desejaria dar-te um outro olho – disse ela – mas só a tua mãe podia dar-te esse presente; mas continua a acompanhar-me.
Dizendo essas palavras, desce ela do carro e prossegue o caminho a pé; seu cãozinho também desceu e marchava ao lado da dona, ladrando para a estranha figura do seu escudeiro. Faço mal em lhe dar o título de escudeiro, porque, por mais que ele lhe oferecesse o braço, não quis a dama aceitá-lo, sob o pretexto de que o braço estava muito sujo; e ides ver agora como a princesa foi vítima de seu próprio asseio. Tinha ela uns pequeninos pés, e uns sapatinhos ainda menores, de maneira que não era feita para longas caminhadas, nem estava devidamente calçada para isso.
Lindos pezinhos consolam de ter pernas débeis, quando se passa a vida numa espreguiçadeira, em meio de uma porção de peralvilhos; mas de que servem sapatos bordados e lantejoulados em um caminho pedregoso, onde só podem ser vistos por um carregador e, ainda por cima, por um carregador que só tem um olho?
Melinade (é este o nome da dama, que tive minhas razões para calar até agora, visto que ainda não fora inventado), Melinade avançava como podia, amaldiçoando o seu sapateiro, escorchando os pés, e dando um mau jeito a cada passo. Fazia hora e meia que ela marchava como as grandes damas, isto é, já fizera perto de um quarto de légua, quando tombou de fadiga.
Mesrour, cujos serviços ela recusara enquanto estava de pé, hesitava em lhos oferecer, por medo de a macular com o seu contato; pois bem sabia que não estava limpo (a dama claramente lho dera a entender), e a comparação que fizera em caminho entre a sua pessoa e a da sua amada ainda lho mostrava com maior clareza. Tinha ela um leve vestido cor de prata, semeado de guirlandas, que lhe ressaltava a beleza do talhe; e ele, um blusão pardacento, todo manchado, rasgado e remendado, e de tal maneira que os remendos ficavam ao lado dos buracos e não por baixo, onde estariam mais no seu lugar. Havia comparado as suas mãos musculosas e cobertas de calos com as duas pequenas mãos mais brancas e delicadas do que lírios. Vira enfim os lindos cabelos loiros de Melinade, que se entremostravam através de um véu de gaze, penteados em tranças e cachos; e ele, para colocar ao lado disso, não tinha mais que umas eriçadas crinas negras, cujo único ornamento era um turbante roto.
No entanto Melinade tenta erguer-se, mas tomba em seguida, e tão desastradamente, que o que ela deixou ver a Mesrour tirou-lhe o pouco de razão que a vista de seu rosto pudera deixar-lhe. Esqueceu que era carregador, que era zarolho, e não mais pensou na distância que a fortuna pusera entre ambos; mal se lembrou que amava, pois faltou à delicadeza que dizem inseparável de um verdadeiro amor, e que às vezes lhe constitui o encanto, e muitas vezes o aborrecimento; serviu-se dos direitos à brutalidade que lhe dava a sua condição de carregador; foi brutal e feliz. A princesa, então, estava, sem dúvida desmaiada, ou lamentava a sua sorte; mas, como tinha um espírito justo, abençoava decerto o destino pelo fato de todo infortúnio trazer consigo o seu próprio consolo.
A noite estendera os véus no horizonte, e ocultava na sua sombra a verdadeira felicidade de Mesrour e a pretensa desgraça de Melinade; Mesrour desfrutava os prazeres dos perfeitos amantes, e desfrutava-os como carregador, quer dizer (para vergonha da humanidade) da maneira mais perfeita; os desmaios de Melinade voltavam-lhe a cada momento, e a cada momento o seu amante recuperava forças.
— Poderoso Maomé – disse ele uma vez, como homem arrebatado, mas como péssimo católico, – só o que falta à minha felicidade é ser sentida por aquela que a causa; enquanto estou no teu paraíso, divino profeta, concede-me ainda um favor, o de ser para os olhos de Melinade o que ela seria para os meus olhos, se houvesse luz.
Acabou de rezar e continuou a gozar. A aurora, sempre demasiado diligente para os amantes, surpreendeu a ambos na atitude onde ela própria poderia ter sido surpreendida um momento antes, com Titono. Mas qual não foi o espanto de Melinade quando, abrindo os olhos aos primeiros raios do dia, viu-se num lugar encantado, com um homem de nobre estrutura, cujo rosto se assemelhava ao astro cuja volta a terra aguardava! Tinha faces de rosa, lábios de coral; seus grandes olhos, ao mesmo tempo ternos e vivos, exprimiam e inspiravam volúpia; seu carcaz de ouro, ornado de pedrarias, pendia-lhe do ombro e só o prazer fazia ressoar as suas flechas; sua longa cabeleira, presa por um atilho de diamantes, flutuava-lhe livremente sobre os rins, e um tecido transparente, bordado de pérolas lhe servia de veste, sem nada ocultar da beleza do seu corpo.
— Onde estou, e quem és – exclamou Melinade no auge da surpresa.
— Estais – respondeu ele – com o miserável que teve a ventura de vos salvar a vida, e que tão bem cobrou o seu trabalho.
Melinade, tão satisfeita quanto espantada, lamentou que a metamorfose de Mesrour não tivesse começado mais cedo. Aproxima-se de um magnífico palácio que lhe atraíra o olhar e lê esta inscrição na porta: “Afastai-vos, profanos; estas portas só se abrirão para o senhor do anel.” Mesrour aproxima-se por sua vez para ler a mesma inscrição, mas viu outros caracteres e leu estas palavras: “Bate sem receio.” Bateu, e em seguida as portas se abriram por si mesmas com fragor. Os dois amantes entraram, ao som de mil vozes e de mil instrumentos, num vestíbulo de mármore de Paros; dali passaram para uma sala soberba, onde os esperava há mil duzentos e cinqüenta anos um festim delicioso, sem que nenhum dos pratos houvesse esfriado: puseram-se à. mesa e foram servidos cada um por mil escravas da maior formosura; a refeição foi entremeada de concertos e danças; e, quando terminou, todos os gênios vieram, na maior ordem, em diferentes grupos, com vestuários tão suntuosos quão singulares, prestar juramento de fidelidade ao senhor do anel, e beijar o dedo sagrado que o carregava.
Ora, havia em Bagdad um muçulmano muito devoto que, não podendo ir lavar-se na mesquita, fazia a água da mesquita vir à sua casa, mediante uma pequena retribuição que pagava ao sacerdote. Acabava ele de fazer a quinta ablução, a fim de se preparar para a quinta prece. E a sua criada, rapariga estouvada e muito pouco devota, desembaraçou-se da água santa lançando-a pela janela. A água caiu sobre um infeliz profundamente adormecido junto a um marco que lhe servia de apoio. Acordou-se com o choque. Era o pobre Mesrour que, voltando do seu passeio encantado, perdera na viagem o anel de Salomão. Deixara as soberbas vestes e retomara o seu blusão; seu belo carcaz de ouro havia-se transformado num porta-fardos de madeira e, para cúmulo da desgraça, tinha deixado um dos olhos no caminho. Lembrou-se então de que bebera na véspera grande quantidade de aguardente, que lhe adormentara os sentidos e aquecera a imaginação. E Mesrour, que até aquele instante amara essa bebida por gosto, começou a amá-la por gratidão, e voltou alegremente ao trabalho, resolvido a empregar o salário daquele dia na aquisição dos meios para tornar a ver a sua querida Melinade. Qualquer outro ficaria desolado de ser um mísero zarolho depois de ter tido dois lindos olhos; de sofrer as recusas das varredeiras do palácio depois de haver gozado os favores de uma princesa mais bela do que as amantes do califa; e de estar a serviço de todos os burgueses de Bagdad depois de haver reinado sobre todos os gênios; mas Mesrour não possuía o olho que vê o lado mau das coisas.
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