Encontrei novamente uma dona estranha. Estava sumida das minhas relações, há muito parecia não travar contato com ela. Lembro de tê-la deixado em algum lugar, perdida na inocência. Sentia-me muito bem com ela, respirava-a pela manhã, passava o(s) dia(s) todo(s) sentindo sua presença, e o meu último pensamento era dela, sempre dela.
Mas eu não descobri, simplesmente: eu a redescobri. Revisitei as veredas recônditas do que posso chamar alma ou coração ou cérebro ou alma-coração-cérebro e pude novamente apreciar as paisagens oníricas criadas na presença dela, dessa moça que vem, e vai, e não importa o que se pense, parece que ela é sempre a determinante em um sistema de forças racionais.
Ela chega sempre na hora exata, porque é sempre a hora exata pra ela, mesmo que não seja para nós.
Os rituais são sempre semelhantes ao cenário das descobertas, mas com – pelo menos – uma diferença: estamos mais maduros. Saímos de um estado de empolgação para o de tédio. Isso parece ser a regra. Mas o que importa é a exceção, é a passagem desse aborrecimento para algo maior, e incrivelmente mais maravilhoso.
É sair da paixão para a não-paixão para a mais-paixão.
Agora que estou frente a frente com ela sinto-me um tanto cauteloso, com medo de dar o braço a torcer e perdê-lo.
Antes perder um braço que nunca tê-lo arriscado.
As certezas.
Estas são as mais prejudicadas pela minha amiga perdida/achada. Mesmo que se tratem de certezas das incertezas, elas são abaladas.
Agora, onde tudo vai dar? O itinerário dessa maluca não é fácil de prever. O melhor mesmo é deixar que ela tome conta de tudo, esperar que não nos obrigue a nada que não queiramos.
Devagar ela vem. Chega arrebatedoramente.Despe-se de suas armas. Vem só. Apenas. Uma. Paixão.
terça-feira, junho 8
Saudade
Passam-se os dias, passam-se as horas.
Uma vida passa e, sem que percebamos,
nós também passamos.
E aqueles a quem amamos, tão inocentes,
tragados por nossa incerteza,
derramam lágrimas amargas de amor.
E nós sentimos medo, medo de perder,
medo de nos perdermos, e de vagar
sem jamais novamente encontrar
o colorido do sorriso de uma criança.
Uma vida passa e, sem que percebamos,
nós também passamos.
E aqueles a quem amamos, tão inocentes,
tragados por nossa incerteza,
derramam lágrimas amargas de amor.
E nós sentimos medo, medo de perder,
medo de nos perdermos, e de vagar
sem jamais novamente encontrar
o colorido do sorriso de uma criança.
sábado, junho 5
espectadores II
Estranho este universo de blogs. Passeei nele por algum pouco tempo há alguns minutos e, estranhamente, senti como estivesse invadindo privacidade alheia, bisbilhotando. Não é muito convencional eu ter interesse a respeito da vida de outrem, e lendo o que estava lá escrito senti-me como aquele amigo chato que fica perguntando “o que houve?” quando estamos apenas com vontade de baixar a cabeça e fechar os olhos. Não sei se é porque o que eu li pareceu-me muito com o que imagino que se escreva em diários, e por isso não me senti bem, não consigo ser curioso.
Mas foi uma viagem divertida, passar do blog dos amigos para os blog dos amigos dos amigos e então constatar que eu já estava longe, e não possuía nenhuma relação com aquelas pessoas cujos pensamentos eu agora descobria, pensamentos que podem até ser semelhantes aos meus, ainda que escritos de maneira bastante diferente.
Felizmente, quando estava começando a gostar do que lia, o meu computador trancou e tive que fechar todos os programas. Então decidi escrever em vez de ler. Mas quando estava começando a colar a primeira letra da primeira palavra pensei: e se alguém como eu, que também esteja visitando virtualmente registros alheios, deparar-se com isso aqui? Certamente, se não fechar logo de cara vai acabar lendo. Sentirei-me como aquele escritor que diz: “o pior não é vender o livro, é saber que alguém irá lê-lo”.
Ando questionando-me quanto a escrever assim, como estivesse falando com alguém. É muito estranho. Aliás, por que estou escrevendo para ti? Quero dizer, não há um “ti”, não há um interlocutor, ao menos não uma pessoa definida. Estarei então escrevendo para mim? Mas não tenho por quê fazer isso, como coloquei no post passado. É um mistério, e por isso acho tão estranho isso de escrever para alguém, sem na verdade escrever para alguém.
Mas foi uma viagem divertida, passar do blog dos amigos para os blog dos amigos dos amigos e então constatar que eu já estava longe, e não possuía nenhuma relação com aquelas pessoas cujos pensamentos eu agora descobria, pensamentos que podem até ser semelhantes aos meus, ainda que escritos de maneira bastante diferente.
Felizmente, quando estava começando a gostar do que lia, o meu computador trancou e tive que fechar todos os programas. Então decidi escrever em vez de ler. Mas quando estava começando a colar a primeira letra da primeira palavra pensei: e se alguém como eu, que também esteja visitando virtualmente registros alheios, deparar-se com isso aqui? Certamente, se não fechar logo de cara vai acabar lendo. Sentirei-me como aquele escritor que diz: “o pior não é vender o livro, é saber que alguém irá lê-lo”.
Ando questionando-me quanto a escrever assim, como estivesse falando com alguém. É muito estranho. Aliás, por que estou escrevendo para ti? Quero dizer, não há um “ti”, não há um interlocutor, ao menos não uma pessoa definida. Estarei então escrevendo para mim? Mas não tenho por quê fazer isso, como coloquei no post passado. É um mistério, e por isso acho tão estranho isso de escrever para alguém, sem na verdade escrever para alguém.
espectadores
Acho que tenho que começar a pensar mais no que escrevo aqui. Era, sim, estranho escrever para mim mesmo, sabendo que meu único leitor seria eu, e por mais crítico que pudesse ser, ao menos não me sentiria mal. Afinal, sou só eu, e assim como não gosto do que escrevo, também não levaria a sério uma crítica negativa minha sobre mim. Além disso, se eu continuasse a escrever para mim mesmo não precisaria fazer-me entender, afinal, para que decodificar o que já vem estranho e maluco da minha cabeça apenas para adequar de novo o vulgar ao meu estranho conjunto de sinais!?
Mas algo que ignoro leva-me a divulgar o que escrevo, mesmo que por linhas tortas, algo que veio inesperadamente, aparentemente para ficar. Não que ainda não tema mostrar a alguém minhas palavras, esse sortilégio acompanha-me há muito e dificilmente deixar-me-á (ahá, uma mesóclise); no entanto, acredito finalmente não mais ligar para o que pensam. Sim, confesso: aderi ao pensem bem, pensem mal, mas pensem de mim.
Como dizia, terei de refletir acerca do que penso um tanto mais. Talvez ser mais claro, mais objetivo, menos eu. Afinal, se escrevo em um espaço público tenho ao menos que ser público. Ou não, como diz Caetano.
Enquanto não resolvo se resolvo resolver, transcrevo um dos primeiros textos que escrevi, há algum tempo atrás, e que encaixa-se em termos no que até agora apareceu. No mais, bom resto de vida para aqueles que morrerão antes que eu escreva novamente.
E eis que surjo
Parece que é na madrugada que tenho minhas inspirações mais fortes. Não entendo o porquê do fenômeno, apesar de já ter ido a vários psicólogos, psiquiatras e outros muitos "psi", além do pai-de-santo, babalorixá e agiota Janguinho do Tarô. Alguns vieram com explicações freudianas, relacionando minha febre noturna com o meu horário de amamentação, outros afirmaram categoricamente: "só internando!".
Mas a cruel verdade é que estou destinado a ser mais um escritor noturno, dentre os tantos presentes no mundo literato. Não posso mais me iludir achando que um dia acordarei com os galos cantando, respirarei o ar puro matinal e, com as energias renovadas, sairei para observar as gotículas de orvalhos evaporando-se. Não, não posso pensar que verei as senhoras passeando com seus cães, as padarias abrindo. Não sentirei a fragrância do começo do movimento urbano, não sentirei em meu corpo os sintomas de um corpo saudável.
Do meu refúgio, verei a vida morta. A parte da existência secretada das mentes puras, inocentes. Enquanto no cérebro de considerável parcela de nossa população figurar sonhos, pesadelos ou simples repouso, estarei frenético, sustentado pela cafeína e possivelmente pela nicotina, além de jazer em um ambiente desagradável.
Esperem sim mentiras, hipocrisia, barbáries para com a literatura. Não espero nada do leitor além de desejar profundamente que seja minha privada pública, para que eu possa despejar todos os meus dejetos psíquicos sem no entanto ser obrigado a puxar a corda de descarga.
Claro, zelarei pela moralidade do leitor – apesar de considerá-lo imoral apenas por ler o que escrevo. Por fim, quero parabenizá-los por ler isso até o final. Poucos teriam coragem, visto que tudo é uma grande matéria fecal. Espero que não tenham odiado tanto o texto e que voltem; não serão, entretanto, bem-vindos.
Mas algo que ignoro leva-me a divulgar o que escrevo, mesmo que por linhas tortas, algo que veio inesperadamente, aparentemente para ficar. Não que ainda não tema mostrar a alguém minhas palavras, esse sortilégio acompanha-me há muito e dificilmente deixar-me-á (ahá, uma mesóclise); no entanto, acredito finalmente não mais ligar para o que pensam. Sim, confesso: aderi ao pensem bem, pensem mal, mas pensem de mim.
Como dizia, terei de refletir acerca do que penso um tanto mais. Talvez ser mais claro, mais objetivo, menos eu. Afinal, se escrevo em um espaço público tenho ao menos que ser público. Ou não, como diz Caetano.
Enquanto não resolvo se resolvo resolver, transcrevo um dos primeiros textos que escrevi, há algum tempo atrás, e que encaixa-se em termos no que até agora apareceu. No mais, bom resto de vida para aqueles que morrerão antes que eu escreva novamente.
E eis que surjo
Parece que é na madrugada que tenho minhas inspirações mais fortes. Não entendo o porquê do fenômeno, apesar de já ter ido a vários psicólogos, psiquiatras e outros muitos "psi", além do pai-de-santo, babalorixá e agiota Janguinho do Tarô. Alguns vieram com explicações freudianas, relacionando minha febre noturna com o meu horário de amamentação, outros afirmaram categoricamente: "só internando!".
Mas a cruel verdade é que estou destinado a ser mais um escritor noturno, dentre os tantos presentes no mundo literato. Não posso mais me iludir achando que um dia acordarei com os galos cantando, respirarei o ar puro matinal e, com as energias renovadas, sairei para observar as gotículas de orvalhos evaporando-se. Não, não posso pensar que verei as senhoras passeando com seus cães, as padarias abrindo. Não sentirei a fragrância do começo do movimento urbano, não sentirei em meu corpo os sintomas de um corpo saudável.
Do meu refúgio, verei a vida morta. A parte da existência secretada das mentes puras, inocentes. Enquanto no cérebro de considerável parcela de nossa população figurar sonhos, pesadelos ou simples repouso, estarei frenético, sustentado pela cafeína e possivelmente pela nicotina, além de jazer em um ambiente desagradável.
Esperem sim mentiras, hipocrisia, barbáries para com a literatura. Não espero nada do leitor além de desejar profundamente que seja minha privada pública, para que eu possa despejar todos os meus dejetos psíquicos sem no entanto ser obrigado a puxar a corda de descarga.
Claro, zelarei pela moralidade do leitor – apesar de considerá-lo imoral apenas por ler o que escrevo. Por fim, quero parabenizá-los por ler isso até o final. Poucos teriam coragem, visto que tudo é uma grande matéria fecal. Espero que não tenham odiado tanto o texto e que voltem; não serão, entretanto, bem-vindos.
quinta-feira, junho 3
Encenação
Acho que estou meio clichê. Hoje, por exemplo, pensei naquela famosa frase, cujo autor desconheço, “a vida imita a arte”. Como bom materialista sempre imaginei que fosse o contrário, que a partir da vida, ou da sua produção, é que a arte surgia. Porém, assistindo o noticiário pensei o contrário, devido a uma cena bastante peculiar ao jornalismo: quatro policiais aparecendo do lado de fora de uma casa, correndo, subindo uma escada e, finalmente, em frente a uma porta, os quatro, detiveram-se como esperando o diretor gritar “ação” (não descarto a possibilidade de que isso tenha de fato acontecido). Mas o que realmente chamou minha atenção foi quando o policial empunhou sua pistola, aproximou-a de seu peito e estendeu sua perna até a porta, abrindo-a toscamente. Não seria tão patético se um outro policial, ao seu lado, não tivesse girado a maçaneta. Não sei se está entre as tarefas da polícia federal assistir a filmes de ação hollywoodianos, mas certamente o que passou na cabeça dos “atores” – ou do diretor – foi estarem participando de um blockbuster.
Não sei se posso generalizar, mas, ultimamente, tudo e todos parecem estar dentro de um filme meio sem sentido, todos parecem tão artificiais dentro de suas naturezas, incluindo a mim. De uma certa forma parecemos todos estar decorando textos escritos por autores malucos, representantes do surrealismo, ou do cubismo, ou de qualquer outro “ismo”. Choramos como se fosse tragédia grega, rimos como nas comédias de Tchékov, estamos a qualquer momento a ponto de salvar o mundo ou nos apaixonarmos perdidamente pelas namoradas de nossos melhores amigos. Parece ter tudo virado uma grande telenovela mexicana, com seus Jorges Rodrigos e Marias Augustas, amando-se desde o início e ficando juntos apenas no último capítulo.
Diante desse quadro de profundo desespero, imagino que o melhor a fazer é ensaiar; por isso, quando me encontro sozinho, no banheiro ou um pouco antes de dormir, repito em voz baixa algumas falas, ensaio movimentos, marco minha posição no palco. Também peço, sempre que posso, para que o roteirista seja mais original, que busque novos elementos, enfim, que seja alternativo, para que o nosso espectador possa pensar um pouco enquanto ri e chora sem nada entender.
Não sei se posso generalizar, mas, ultimamente, tudo e todos parecem estar dentro de um filme meio sem sentido, todos parecem tão artificiais dentro de suas naturezas, incluindo a mim. De uma certa forma parecemos todos estar decorando textos escritos por autores malucos, representantes do surrealismo, ou do cubismo, ou de qualquer outro “ismo”. Choramos como se fosse tragédia grega, rimos como nas comédias de Tchékov, estamos a qualquer momento a ponto de salvar o mundo ou nos apaixonarmos perdidamente pelas namoradas de nossos melhores amigos. Parece ter tudo virado uma grande telenovela mexicana, com seus Jorges Rodrigos e Marias Augustas, amando-se desde o início e ficando juntos apenas no último capítulo.
Diante desse quadro de profundo desespero, imagino que o melhor a fazer é ensaiar; por isso, quando me encontro sozinho, no banheiro ou um pouco antes de dormir, repito em voz baixa algumas falas, ensaio movimentos, marco minha posição no palco. Também peço, sempre que posso, para que o roteirista seja mais original, que busque novos elementos, enfim, que seja alternativo, para que o nosso espectador possa pensar um pouco enquanto ri e chora sem nada entender.
terça-feira, junho 1
Novo começo...
É, blog novo, vida nova, como dizem. Não sei se para mim isso adianta, não escrevia no meu outro blog, não creio que escreverei muito mais nesse. Talvez no início minha euforia - sempre ela - leve-me a colocar palavras soltas por aqui. Mas somente no início. Não sei se depois acaba minha imaginação, ou perco-me nas minhas linhas, ou simplesmente passo a não ter sobre o que escrever, pelo menos nada que considere significativo. O que posso fazer é aproveitar enquanto escrevo; depois, quando parar, basta colocar frases, poemas ou qualquer outra coisa de outras pessoas. Acho que isso é assim: vida curta para os blogs. Ou para o meu blog, sem querer generalizar.
Procurei por algum blog em português para postar com mais facilidade, mas para todos eu deveria antes assinar a globo.com, o brturbo. Então decidi dar uma olhada nos sites em inglês, e achei o Blogger gratuito, sem nem precisar assinar qualquer provedor.
Gostei de achar o Blogger em inglês, apesar de não conseguir achar (e não conseguir me achar nos) templates. Mas não tem importância, o conteúdo é o que importa, também dizem isso. Não sei o que esperar do que escreverei aqui, nem sei se vai ser lido. De qualquer modo, é um risco que serei obrigado a correr, risco de ninguém compartilhar minhas lamentações, minhas (raras) alegrias, minhas criações literárias - se é que posso assim chamá-las sem ofender quem realmente faz literatura.
Enfim, até quem sabe uma próxima vez...
Procurei por algum blog em português para postar com mais facilidade, mas para todos eu deveria antes assinar a globo.com, o brturbo. Então decidi dar uma olhada nos sites em inglês, e achei o Blogger gratuito, sem nem precisar assinar qualquer provedor.
Gostei de achar o Blogger em inglês, apesar de não conseguir achar (e não conseguir me achar nos) templates. Mas não tem importância, o conteúdo é o que importa, também dizem isso. Não sei o que esperar do que escreverei aqui, nem sei se vai ser lido. De qualquer modo, é um risco que serei obrigado a correr, risco de ninguém compartilhar minhas lamentações, minhas (raras) alegrias, minhas criações literárias - se é que posso assim chamá-las sem ofender quem realmente faz literatura.
Enfim, até quem sabe uma próxima vez...
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