domingo, outubro 31

já me dei conta

Algumas vezes é uma fotografia. Outras, um toco de vela verde ardendo, ou o resto de um almoço no canto do prato. Há sempre uma coisa. Sempre algo que coloca dentro da cabeça o que não era para estar, ou pior, repõe lá versos de uma poesia antiga, conhecida. A imensa falta é então sentida, uma lacuna a preencher espaços antes repletos, cheios de vida. O que sobrou não é o que sobrou, é o que não há mais. Resta agora somente o que não restou, o que foi e cessou. É um que-pode-vir-a-ser, mas também um ninguém-garante. Fica a saudade.

sexta-feira, outubro 29

A dor que não é minha

Eu quero chorar em vez de ti
essa dor que não é minha.
Quero doer fundo como em ti dói fundo fundo.
Quero suspirar a dor depois de já haver passado uma semana, apenas para novamente convulsionar.
Entrar em choque.
Em pânico.
Voar através da janela que é o espelho em que vejo o que não vejo de verdade, sei que não é real mas a única realidade possível
afora essa dor que não é minha.
Quero ter algo dentro de mim que eu chore, chore, sue, vomite, vomite, vomite, grite e chore e vomite, e que não saia, que cause talvez minha morte ou a morte do que fora eu um dia ou do que me transformei nesse dia.
Eu sei que o que levas contigo aí dentro sou eu, ou um eu que já existi, que foi, carne-osso-amor, mas que ora não passo de muito pouco ânimo.
Levas a dor de ter morrido um amor. Um teu homem.
Alguém que te empurrava no balanço. Que roubava flores
de verdade. E te dava.
Sentes a dor
que não é
minha.
Mas fui assassinado. E de mim foram levando qualquer coisa,
até um jeito de sorrir que tinha.
Sou nada menos que algo. Alguma coisa indigesta que ora remóis
– e que dói – e não consegues engolir. Sequer
cuspir.
Eu desejo teu sofrimento para mim. Para que não o sintas.
Para punir a culpa.
E eximir a inocência.
E deixar tuas madeixas alongarem-se, que não têm nada a ver com isso.
Expurgar essa dor que não é minha.
Sou eu.

Paulo Rosa Santos, 23/10/04 (mad)

quinta-feira, outubro 21

Um salto para a felicidade

Não vejo a hora de me tornar velho. Antes, desejava morrer recém-saído da adolescência, prematuramente (se é que existe isso de morrer prematuramente). Mais ou menos aquela compulsão de viver intensamente os primeiros anos e então deixar-se cair em um penhasco ou numa overdose de heroína. Mas os primeiros anos não foram intensos. E o que se configura no momento não é a morte repentina, e sim uma "adultície" entediante, sem nenhum atrativo, nada com que valha a pena excitar-se. Apenas um trabalho maçante, a rotina invariável acordar-nãofazernadainteressante-dormir. Na verdade, o que eu gostaria é de pular essa fase adulta, diretamente para a "terceira idade", onde a vida realmente começa (a terminar, talvez, mas já é um começo). Talvez seja exatamente isso que aspiro: um novo início, talvez por isso queira trocar de curso, trocar de interesses, trocar de corpo, ficar sozinho, enfim, acabar-me, destruir o que me resta em mim para que, quem sabe, daquilo nasça um outro eu, com um pouco menos de mim mesmo - ou, como aquela flor, furar o asfalto e nascer, ainda que feia, mandando parar todo o resto. Mas isso não é possível - pelo menos não é provável -, tampouco voltar no tempo o é. Desse modo, a única maneira de me sentir renovado seria esse salto para o depois, talvez ficando em coma, preso ou internado no São Pedro. É esse depois que pretendo ter. Eu quero poder andar de ônibus gratuitamente, ter desconto em cinemas, teatros, farmácias. Ter a própria fila no banco ou no supermercado. Almejo da mesma maneira poder sustentar um olhar experiente, de quem muito viveu e carrega consigo o ar de muitos anos, ar de cansaço mas também de regozijo. Viver na iminência da morte, esta sim real, posto que na adolescência é difícil não imaginar que viveremos até os oitenta, noventa, até cem; mas quando se é velho, tem-se a certeza da pouca durabilidade do corpo. É isso, envelhecer. Mas sem se tornar adulto.
P.s.: pareço um guri de quinze anos reclamando da vida. Talvez seja.

domingo, outubro 17

Desabafo

Estou acostumando-me a ficar sozinho. Em um silêncio vazio, não de sons, ser urbano não te permite isso, mas de vida. Se o homem só pode obter tal condição (a de homem) em contato com outros seres humanos, penso que estou perdendo minha humanidade. Não consigo mais falar. Tampouco gritar.
O cigarro rolou sobre o papel. Seria tão mais fácil deixa-lo arder.
Os amigos não te ligam. Tua namorada, a pessoa que mais se importa contigo, te convida a fazer alguma coisa. Tu negas. Talvez se os amigos te ligassem farias o mesmo. Afinal, eles ligavam, ligaram durante tanto tempo. Agora é só o silêncio.
A cachaça que recém tomei ainda mergulha asperamente na goela.
As pessoas se divertem. Acham em si, ou além, motivos. Tu não achas. Não sorris mais. Nem mesmo consegues chorar.
Tão bom se tudo apagasse.
Significado. Aparência. É tudo que podemos alcançar da realidade concreta. E em ela sendo dura, difícil, a única saída que encontras é fechar-te em ti mesmo. Não procurar outras praias. Não ver sol quebrar a atmosfera em outro lugar que no sul. Sensações perdidas. Ilusões nunca tidas.
A perfeição é o quase. O quase é nada.
Não consegues não ser transparente. És diáfano tal o ar, a água límpida. Todos te enxergam. Só tu não vês, não te vês. Está ficando tarde. Tarde para uma outra vida, ou para pelo menos essa vida mesma. O momento perfeito já passou há muito, e os imperfeitos estão desistindo de bater à tua porta.
A morte é só uma. A vida nem isso.
Teus olhos encheram-se de lágrimas. Tua boca de vômito. Repugna tudo o que assimilaste até agora. Um organismo repleto de porcaria. Uma mente repleta de asneiras. Uma alma vazia. Em silêncio.
Procuro um deus onde não há. Lá, que é lá onde ele está, não me arrisco a ir.
Caminhar sob o negro céu de agora seria uma solução. Mas temes o que não conheces. Receias encontrar a verdadeira vida, ou seu fim absoluto. Há viragens do lado de lá do teu mundo que te destruiriam por inteiro, apenas para novamente te erguer. Mas estão tão distantes, e o corpo é tão miseravelmente vadio. Esperas encontrar dentro de ti a resposta para o nada, mas para o nada não há respostas. Sequer existem perguntas. O nada é a perfeição.
E eu não sou nada. Aspiro a essa condição, mas o medo puxa o freio. E paro.
As dúvidas estão quase mortas. Não porque conseguiram entrever um brilho, mesmo que distante.
É que o escuro envolveu meus olhos.
Não há mais escolha. Apenas deslizar a vida passivamente, caminhar no convívio cobrindo o rosto que está vazio.
E manter-me quieto.