Não consigo estabelecer minha idade. Pelo menos a mental, para mim não há como. Ontem fui a uma peça de teatro (sozinho, como sempre), e a média de idade do público era apenas quarenta anos maior do que a minha. Quarenta anos. Claro, havia mais um ou dois "jovens". De resto, só os mais vividos. E não foi apenas nessa ocasião. Freqüento um ciclo de palestras sobre os "autores malditos", poetas franceses do XIX. Já passaram Rimbaud e Verlaine, e para fechar com chave de ouro a próxima será sobre Baudelaire. Mas isso não importa. O fato é que lá também sou o mais novo, muito mais novo. Isso me estranha um pouco. Apreciar esse tipo de coisa, quando o que parece é que eu tinha de estar no shopping, ou na Lima, ou sei lá onde, com "gente da minha idade". Bom, chega dessa divagação. Até aí tudo bem, poderia dizer que tenho um espírito velho. Mas como explicar então eu passar dois dias lendo Alice e não conseguir segurar o sorriso, a gargalhada. No ônibus, numa fila, deitado na cama. Está certo que, como diz na contracapa, não é apenas para crianças. Mas como explicar o Bob Esponja? Não sei. Assim como a personagem de um livro que provavelmente não vou ler, pareço variar dos oito aos oitenta, em menos de minutos. Sexta tenho mais um encontro com um poeta francês. Alice através do espelho já me encara da estante. Ambigüidade.