Quero cruzar o rio e te encontrar. Tu estás aí desse lado que nem sei se é outro. Eu estou aqui, te espero sem esperar no porto de sempre sorrisos. Sou o que nunca seremos. Vejo palavras que escorregam dos teus dedos, lágrimas que se desenham como letras e. A água parece superfície calma, mas sei que medo em redemoinhos ocultos. Medo. Danço ainda a mesma noite de quando. E sinto escorregar mais nossas mãos. Era tudo possível, e nada foi. Nada, e tudo dentro. Convulsões e choro sufocados. A frustração dos lábios. Era noite e as palavras se esqueciam de sair de voltar. Eram bocas e só palavras e silêncios e soluços. Eram corpos e música e o agora nunca foi tão sempre, mas o sempre nunca fim. Olhos, nunca mais. Poucas palavras, esparsas dentro dispersas. Apenas o necessário para o desnecessário.Vazio para esquecer mas só memória. Somente fotografias para flutuarem nas águas. E pequenos bilhetes indecifráveis. Resta o porto destruído, esperando um barco que nunca chegará.
segunda-feira, fevereiro 27
Irreversíveis I
A chuva é água que cai. Molha o corpo a roupa o chão. Molha a alma. O inverno uísque dois cubos de gelo. Pareço bebendo corpo mais quente mais. O sentir esquece de passar e os olhos temem a claridade difusa. Os olhos sem coragem coragens. Realidade nublada, flores sem flores árvores sem folhas. Manhã e nem é dia. Sol e nem é sol. Dentro de mim dentro é lá fora. Céu eu. O peso oprime os dentes num sorriso forçado. A bebida desce seca. Céu molha terra fora. Garganta arde. E nem é mais dia depois de ontem. A mesma chuva chove lá aqui, ontem hoje. Janelas abertas e molha o interior. Cada gota é uma tempestade no olho. Cada olho e é como feridas incuráveis. A água enxerga o olho e dói. A água invade a casa quebrando janelas portas. Penetra pelas frestas invisíveis. A chuva foge, procura um abrigo. Escapo de mim e sou nuvem e sou gelo e sou água. Sou o choro que do céu meus olhos doem mas não.
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