quarta-feira, fevereiro 23

Sem nada a dizer numa quarta

Ontem me senti estúpido. Tentava lembrar coisas e a memória não ajudava. Não conseguia sequer manter um pensamento preso, todos eles fugiam antes de se desenrolarem. Senti-me muito mal, fadado ao desespero de nunca mais conseguir ser eloquente - no pensamento, porque no falar e no escrever sou completamente dispersivo. Não havia como lembrar do nome daquela festa que dura a noite inteira mais uma bela parte da manhã (quando não ultrapassa o "meio-dia do almoço"). Fiquei horas tentando lembrar, mas o nome não vinha. De repente, um estalo: lembrei da palavra oralmente, mas escapava-me ainda sua escrita. "Have"? Não, talvez "heave"? Tampouco. E ela não apareceu.
Hoje, porém, sem nenhum esforço ela estava ali quando precisei: "rave". Foi inútil, eu falava comigo mesmo. Logo, mesmo que não especificasse o termo exato teria feito-me entender. Mas foi então que percebi a diferença. Ontem mal conseguia pôr pensamentos em ordem, hoje eles estão mais fluidos, comunicam-se uns com os outros. Não sei o porquê dessa mudança. É estranho, pois se não conseguisse manter o raciocínio, não estaria escrevendo. Estou bem intelectualmente, apesar de uma dor de cabeça que insiste em perturbar minha nuca, em fazer minhas pálpebras derreterem e invadir os olhos, sinto-me bem, ainda que pouco disposto. Poderia até pensar em escrever, mas não me sinto preparado. Talvez ler, refletir um pouco.
Anoiteceu, e mesmo que estivesse claro não sairia. Minhas pernas não estão bastante firmes, e há ainda esse enjôo. Não, o melhor é atirar-me no estrangeiro, um pouco de Camus ajudará a terminar a noite.