segunda-feira, janeiro 17

Sonhei...

Sonhei – não estava dormindo – que caminhava vagarosamente em um corredor não muito claro, com poucas lâmpadas – todas fluorescentes. A parede não era escura, tinha tons ora creme, ora branco, ora esverdeado. Era limpa, nenhum quadro, nenhuma estante, nenhum prego quebrava a planeza da superfície, exceto algumas portas. Eram várias, e estavam todas abertas. Ao olhar para seus interiores, apesar de não estar escuro, eu não conseguia enxergar nada. Por alguma razão – ou não-razão – o conteúdo de cada porta era para mim irreconhecível. E por algum motivo – ou desmotivo – eu não conseguia passar pelas portas sem que elas me perturbassem, sentia como algo estivesse errado. E fechava as portas, quase todas elas. Algumas eu ia fechando lentamente, e ia sentindo-as fecharem-se, e de alguma forma eu sentia que estava fechando-me para elas. Outras portas eu fechava normalmente, mecanicamente como quem abre os olhos pela manhã e os fecha à noite (não necessariamente manhã e noite). Havia ainda – sim, havia!-, existiam algumas portas que eu não conseguia suportar abertas, causavam-me um asco, uma repugnância tal que eu as batia fortemente, com ódio, com nojo.
O labirinto em linha reta nunca terminava, e eu seguia caminhando sobre aquele tapete que não era vermelho-fama, mas uma mistura alucinante de formas e cores, sóbrias e sombrias, alegres e aleatórias. Ora eu pisava direito, ora esquerdo, ora com um tênis velho, ora com sapatos engraxados, ora descalço.
Pensei algumas vezes vencer meu medo, injetar coragem nas minhas veias e espalhá-la na minha corrente sanguínea, de modo a percorrer meu cérebro, meu peito, meus quadris, e finalmente minhas pernas, fazendo-as sair do tapete, levando-me consigo. Mas o medo não deixava, um receio de entrar na porta errada, ou descobrir que a sala estava vazia, ou cheia demais, aterrorizou-me de tal modo que só em pensar já sentia um calafrio em cada centímetro cúbico do meu corpo.
Continuei andando, caminhando em silêncio e fechando quase todas as portas, algumas eu deixava abertas, nunca se sabe. Uma, em especial, chamou minha atenção, como estivesse gritando. Ela encontrava-se entreaberta e, como sabendo-me próximo, fechou-se subitamente. Levei as mãos a ela, empurrei-a, mas nada dela abrir-se. Girei a maçaneta, mas a porta parecia trancada, e trancada por dentro. Haveria alguém ali? Seria aquela A porta?
Desviei meu olhar para o corredor. Desorientado pelos meus pensamentos, não sabia de qual direção eu vinha, nem para qual eu iria. Decidi então que aquela era a porta por onde eu entraria e mudaria de rumo. Mas ela estava fechada, única e fechada. Comecei a forçá-la, a torcer violentamente a maçaneta, e nada. Dei empurrões na porta, e nada. Tentei tomar alguma distância, mas o corredor parecia mais e mais estreito, e nada.
Desesperado, comecei a chorar, primeiro timidamente, e em seguida estava em prantos, tendo convulsões, até que a tristeza deu lugar à náusea, e as lágrimas transformaram-se em vômito, morno e fétido. Perdi então a consciência por poucos segundos, e quando a recobrei estava sentado no tapete, eu, mais uma forma e uma cor sobre o tapete. Misturado às lágrimas e ao vômito notei algo brilhar, um reflexo da luz fluorescente nas minhas retinas. Pus a mão, senti aquilo já frio, com uma consistência indefinida, e encontrei algo que se parecia com uma chave. Sem hesitar, atirei-a logo na fechadura, e não precisou mais para que a porta se abrisse.
Quando a porta se abriu, o que restava da minha esperança se estilhaçou. Tive a mesma sensação que em todas as outras portas.
Mesmo assim decidi arriscar, e com muito esforço, como quem verga o corpo a fim de sustentar o lar, passei com o corpo inteiro através da moldura. De repente, escuridão. Mesmo olhos abertos, não via absolutamente nada. Tampouco escutava ou sentia cheiro algum. Aos poucos foi tudo se tornando nítido para meus sentidos, e foi tudo tão consciente, tão bizarro que achei e não achei que fosse real.
Quando finalmente pude enxergar, virei para trás em direção aonde eu havia entrado. Não havia mais uma porta, mas, do mesmo modo, a parede também não encontrava-se limpa. Entre quatro caixilhos de madeira, protegida por um fino mas consistente vidro, estava uma pintura, ou uma fotografia, não pude decifrar, apenas consegui visualizar alguns detalhes.
No chão, o tapete havia mudado, agora ele era monocromático, possuía uma única cor indistinguível.
Curioso, virei-me por completo, e o que vi deixou-me assustado. Com paredes de outras cores, outros tipos de portas, outras lâmpadas, o mesmo corredor longo tomou conta da minha visão, e ele parecia maior, parecia mais que infinito, pois além de portas novas também possuía algumas já conhecidas.
Desesperado, lembrei que estava num sonho e tentei acordar. Mas, como disse, não estava dormindo.