eu cheguei cedo. ele veio mais tarde. comecei, e ele já se sentou. está ao meu lado. enquanto aperto botões, ele espreita meu serviço, para certificar-se de que nada saia errado. não que eu já tenha feito algo que pudesse deixá-lo assim. ele simplesmente desconfia, como desconfiamos todos. ele agora finge estar usando o computador. dissimulado. enquanto eu sou obrigado a assistir à televisão, ele, que não é obrigado, assiste a mim. e não me assiste. ensaio ir embora, mas a noite é longa e seus olhos perseguem até minha sombra. por trás daquelas lentes ele deve ver tudo ampliado, desde a minha respiração sôfrega até minha vontade de ir embora, de deixá-lo só. mas ele não se importa. ele quer que eu saia quando a sineta tocar. e não há sineta. há um relógio que marca um tempo de anos. cada segundo é um passo em direção à liberdade, mas ele sufoca minha vontade a ponto de congelar os ponteiros. sufoca a ponto de deixar-me constrangido, quieto. realmente amedrontado. sequer viro-me em sua direção. mas sinto sua respiração forte, além de um grande olho pesadamente vigilante. quero apenas deixá-lo só. mas ele não quer que eu desapareça. detesta minha silenciosa companhia, e mesmo assim insiste com sua boca enorme, virada em enormes beiços, para que eu fique. talvez seja medo da solitária madrugada. duvido. de qualquer forma, que tenho eu com isso? as minhas madrugadas não quero transformadas em tédio, ainda mais a seu lado. quero de novo e para sempre liberdade. estou pensando em girar a cadeira uns cento e oitenta graus. olhá-lo de frente, tocar com o gelo dos meus olhos a violência repressora que finge-se indiferente. mas sinto medo. não apenas dele, que ele é como uma câmera a me vigiar, e câmeras podem ser muito facilmente destruídas. receio a mim mesmo. se encará-lo, sou capaz de enfiar outra coisa através de suas lentes que meu olhar, por penetrante que seja. já havia notado uma caneta ao meu lado. posso jurar que a sinto afiada, e a sinto com os olhos, que é mais que o tato. poderia ser rápido. e simples. não digo indolor porque não sei. mas gostaria que não fosse. ouço-o tossir de forma virulenta. é provocação, só pode ser. ou então pode ser que essa maldita máquina humana esteja demonstrando seu fraco. talvez seja a hora de atacar, invadir o castelo. aperto mais uns botões e espero que ele baixe a guarda novamente. então o esfaqueio. ou melhor, o caneteio, que é o mesmo, pois a minha raiva pode transformar esse simples e pacífico objeto na mais letal arma. mas sua respiração mudou. está mais lenta. nem sinto mais os olhos dele em cima de mim. talvez esteja dando o braço a torcer, e queira deixar de animosidades. mas pode ser um truque. vou pegar a caneta com as minhas mãos suadas e virar-me, e dependendo do que ele fizer, cravo-a nos seus olhos, ou onde conseguir. é agora. não, tenho de apertar mais esse botão. já me sinto mais calmo. aliviado. sequer o ouço, embora ainda o saiba ali. meu deus, não é hora de fraquejar. estava quase conseguindo. é melhor desistir. afinal, se cumpro meu desejo, talvez tenha de ficar aqui até ouvir os primeiros galos cantarem. pela televisão, claro, que estou tão isolado do resto do mundo que nem sei se é dia ou noite, a não por aquele maldito relógio que pende sobre minha cabeça. ei, espera. já é quase hora. em minutos estarei livre dessa maldita condição. poderei, com a consciência limpa, honestamente, deixá-lo aqui e ir-me embora. levanto-me, ainda de costas. ah, se ele falar qualquer coisa. não deixo nem a boca reagir, dou ordens diretamente à mão, ela que faça o serviço. mas ele está quieto. pego minhas coisas. sem vê-lo, digo "estou indo". a mão está nervosa, e o suor já empapa a camisa. receoso, passo a encará-lo. plácido, deseja-me boa noite. no seu rosto fechado vislumbro um sorriso secreto, algo quase imperceptível. pergunto-me o que estaria pensando. em suas mãos, além de muito suor, enxergo o fio do mouse enrolado. o rosto, pensando melhor, não é sorriso de vênia. é sorriso de alívio, como o meu. essa noite já acabou para mim. mas amanhã tem mais.