Nunca cresci, acho. Ainda fico esperando o sono da mesma maneira que fazia antes, apenas troquei de companhia: se antes dormia assistindo à televisão até o último canal fechar (é, antigamente todos fechavam), agora dificilmente tampo os olhos sem dar uma paginada em algum livro, mesmo que só leia um poema, ou uma página de romance, ou – cúmulo – um verbete inútil de dicionário. Também continuo sonhando acordado, vivendo em um mundo na minha cabeça enquanto na realidade vivo parcamente, sem nenhuma das grandiosidades presentes na minha “surrealidade”. De qualquer maneira, existem hábitos que jamais abandonei, ou eles é que nunca abandonaram a mim.
Uma das coisas de que sentia saudade era um bom banho de chuva. Sentir aquelas gotículas inundando o tecido da minha bermuda, assim como minha epiderme e meus cabelos. Senti-los molhados, o corpo ligeiramente arrepiado, sem entender como fora se meter numa situação daquelas, ele que normalmente protegia-se debaixo de guarda-chuvas, marquises, ou simplesmente ficava atrás da janela, onde vislumbrava através dela a chuva que no momento o tomava.
É tão maravilhoso sentir novamente. É algo como remontar um passado distante, que ficou para trás mas está sendo revivido, remontado, re-sentido. Se eu fosse encarregado de criar um ritual arquetípico, que se repita de modo a rememorar um passado glorioso e exemplar, como uma sagração de um mito de origem ou qualquer coisa do gênero, certamente incluiria um banho de chuva dentre os gestos rituais. Algo ligado com a primordialidade do caos, ou sua proeminência frente à ordem pós-estabelecida. Hoje enquanto apanhava a furiosa tormenta que alagou a cidade consegui ficar sem pensar em nada (que me lembre), foi um desses momentos em que tu não és mais tu, mas te transforma em algo, talvez até una o teu corpo, tua mente, com o resto, com o “não-tu”. De qualquer forma, penso que tive uma experiência meio transcendental, embora fique confuso em retornar à infância, logo eu, um nostálgico inveterado. Creio que vou carregar todas as gotas que caíram sobre meus poros por algum tempo ainda.
Todavia gostaria de mais. Talvez de juntar minhas poucas coisas e tomar banhos de chuvas várias, misturar a água de diversos lugares comigo, criando uma grande massa amorfa, poderia ser até um cimento, ou mesmo algo que não endurecesse, mas que fosse moldável e que pudesse se transformar em qualquer coisa que não fosse eu. Porque eu não dá mais.