Não vejo a hora de me tornar velho. Antes, desejava morrer recém-saído da adolescência, prematuramente (se é que existe isso de morrer prematuramente). Mais ou menos aquela compulsão de viver intensamente os primeiros anos e então deixar-se cair em um penhasco ou numa overdose de heroína. Mas os primeiros anos não foram intensos. E o que se configura no momento não é a morte repentina, e sim uma "adultície" entediante, sem nenhum atrativo, nada com que valha a pena excitar-se. Apenas um trabalho maçante, a rotina invariável acordar-nãofazernadainteressante-dormir. Na verdade, o que eu gostaria é de pular essa fase adulta, diretamente para a "terceira idade", onde a vida realmente começa (a terminar, talvez, mas já é um começo). Talvez seja exatamente isso que aspiro: um novo início, talvez por isso queira trocar de curso, trocar de interesses, trocar de corpo, ficar sozinho, enfim, acabar-me, destruir o que me resta em mim para que, quem sabe, daquilo nasça um outro eu, com um pouco menos de mim mesmo - ou, como aquela flor, furar o asfalto e nascer, ainda que feia, mandando parar todo o resto. Mas isso não é possível - pelo menos não é provável -, tampouco voltar no tempo o é. Desse modo, a única maneira de me sentir renovado seria esse salto para o depois, talvez ficando em coma, preso ou internado no São Pedro. É esse depois que pretendo ter. Eu quero poder andar de ônibus gratuitamente, ter desconto em cinemas, teatros, farmácias. Ter a própria fila no banco ou no supermercado. Almejo da mesma maneira poder sustentar um olhar experiente, de quem muito viveu e carrega consigo o ar de muitos anos, ar de cansaço mas também de regozijo. Viver na iminência da morte, esta sim real, posto que na adolescência é difícil não imaginar que viveremos até os oitenta, noventa, até cem; mas quando se é velho, tem-se a certeza da pouca durabilidade do corpo. É isso, envelhecer. Mas sem se tornar adulto.
P.s.: pareço um guri de quinze anos reclamando da vida. Talvez seja.