sexta-feira, outubro 29

A dor que não é minha

Eu quero chorar em vez de ti
essa dor que não é minha.
Quero doer fundo como em ti dói fundo fundo.
Quero suspirar a dor depois de já haver passado uma semana, apenas para novamente convulsionar.
Entrar em choque.
Em pânico.
Voar através da janela que é o espelho em que vejo o que não vejo de verdade, sei que não é real mas a única realidade possível
afora essa dor que não é minha.
Quero ter algo dentro de mim que eu chore, chore, sue, vomite, vomite, vomite, grite e chore e vomite, e que não saia, que cause talvez minha morte ou a morte do que fora eu um dia ou do que me transformei nesse dia.
Eu sei que o que levas contigo aí dentro sou eu, ou um eu que já existi, que foi, carne-osso-amor, mas que ora não passo de muito pouco ânimo.
Levas a dor de ter morrido um amor. Um teu homem.
Alguém que te empurrava no balanço. Que roubava flores
de verdade. E te dava.
Sentes a dor
que não é
minha.
Mas fui assassinado. E de mim foram levando qualquer coisa,
até um jeito de sorrir que tinha.
Sou nada menos que algo. Alguma coisa indigesta que ora remóis
– e que dói – e não consegues engolir. Sequer
cuspir.
Eu desejo teu sofrimento para mim. Para que não o sintas.
Para punir a culpa.
E eximir a inocência.
E deixar tuas madeixas alongarem-se, que não têm nada a ver com isso.
Expurgar essa dor que não é minha.
Sou eu.

Paulo Rosa Santos, 23/10/04 (mad)