domingo, outubro 17

Desabafo

Estou acostumando-me a ficar sozinho. Em um silêncio vazio, não de sons, ser urbano não te permite isso, mas de vida. Se o homem só pode obter tal condição (a de homem) em contato com outros seres humanos, penso que estou perdendo minha humanidade. Não consigo mais falar. Tampouco gritar.
O cigarro rolou sobre o papel. Seria tão mais fácil deixa-lo arder.
Os amigos não te ligam. Tua namorada, a pessoa que mais se importa contigo, te convida a fazer alguma coisa. Tu negas. Talvez se os amigos te ligassem farias o mesmo. Afinal, eles ligavam, ligaram durante tanto tempo. Agora é só o silêncio.
A cachaça que recém tomei ainda mergulha asperamente na goela.
As pessoas se divertem. Acham em si, ou além, motivos. Tu não achas. Não sorris mais. Nem mesmo consegues chorar.
Tão bom se tudo apagasse.
Significado. Aparência. É tudo que podemos alcançar da realidade concreta. E em ela sendo dura, difícil, a única saída que encontras é fechar-te em ti mesmo. Não procurar outras praias. Não ver sol quebrar a atmosfera em outro lugar que no sul. Sensações perdidas. Ilusões nunca tidas.
A perfeição é o quase. O quase é nada.
Não consegues não ser transparente. És diáfano tal o ar, a água límpida. Todos te enxergam. Só tu não vês, não te vês. Está ficando tarde. Tarde para uma outra vida, ou para pelo menos essa vida mesma. O momento perfeito já passou há muito, e os imperfeitos estão desistindo de bater à tua porta.
A morte é só uma. A vida nem isso.
Teus olhos encheram-se de lágrimas. Tua boca de vômito. Repugna tudo o que assimilaste até agora. Um organismo repleto de porcaria. Uma mente repleta de asneiras. Uma alma vazia. Em silêncio.
Procuro um deus onde não há. Lá, que é lá onde ele está, não me arrisco a ir.
Caminhar sob o negro céu de agora seria uma solução. Mas temes o que não conheces. Receias encontrar a verdadeira vida, ou seu fim absoluto. Há viragens do lado de lá do teu mundo que te destruiriam por inteiro, apenas para novamente te erguer. Mas estão tão distantes, e o corpo é tão miseravelmente vadio. Esperas encontrar dentro de ti a resposta para o nada, mas para o nada não há respostas. Sequer existem perguntas. O nada é a perfeição.
E eu não sou nada. Aspiro a essa condição, mas o medo puxa o freio. E paro.
As dúvidas estão quase mortas. Não porque conseguiram entrever um brilho, mesmo que distante.
É que o escuro envolveu meus olhos.
Não há mais escolha. Apenas deslizar a vida passivamente, caminhar no convívio cobrindo o rosto que está vazio.
E manter-me quieto.