Hoje é dezenove de setembro de dois mil e quatro (saudade dos mil novecentos e noventa e). Escrevo para saberem que estou vivo. Para que eu saiba que ainda não morri. Afinal, de todas as pessoas que lêem estes rabiscos (esboços), eu sou o único que os lê. Preciso colocar aqui palavras desconexas, tirar do meu corpo ou alma ou essência ou de mim os vermes que corróem meus músculos e que andam a espreitar meus olhos para comê-los. Além disso, preciso ler-me para me saber vivo. O coração, que sussurra setenta, oitenta, noventa vezes por minuto, não é suficiente para constatar a atividade vital . O cérebro, constante utilização, poderia funcionar num corpo morto, segundo dizem os avanços da ciência - ainda que por segundos. A respiração se confunde com a brisa que entra soturnamente pelas frestas de um sobrado em abandono; as vias, que são respiratórias, são também vias, e concedem passagem a tudo quanto passar por elas. Viver não é mais do que o acúmulo de funções, cúmulo insano do fordismo. Escrever e ler quebra esse monótono cotidiano. Mas o que quebra o monótono cotidiano de ler e escrever? Talvez existir. Ser. Ou, em vez de somente viver, conviver.
As noites são escuras no quarto de Adelaide.
Seus olhos permanecem cerrados.
A coberta acoberta seu corpo nu.
Suas pálpebras envolvem o mundo.
E, num segundo, ela se põe a sonhar.