sábado, junho 5

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Acho que tenho que começar a pensar mais no que escrevo aqui. Era, sim, estranho escrever para mim mesmo, sabendo que meu único leitor seria eu, e por mais crítico que pudesse ser, ao menos não me sentiria mal. Afinal, sou só eu, e assim como não gosto do que escrevo, também não levaria a sério uma crítica negativa minha sobre mim. Além disso, se eu continuasse a escrever para mim mesmo não precisaria fazer-me entender, afinal, para que decodificar o que já vem estranho e maluco da minha cabeça apenas para adequar de novo o vulgar ao meu estranho conjunto de sinais!?
Mas algo que ignoro leva-me a divulgar o que escrevo, mesmo que por linhas tortas, algo que veio inesperadamente, aparentemente para ficar. Não que ainda não tema mostrar a alguém minhas palavras, esse sortilégio acompanha-me há muito e dificilmente deixar-me-á (ahá, uma mesóclise); no entanto, acredito finalmente não mais ligar para o que pensam. Sim, confesso: aderi ao pensem bem, pensem mal, mas pensem de mim.
Como dizia, terei de refletir acerca do que penso um tanto mais. Talvez ser mais claro, mais objetivo, menos eu. Afinal, se escrevo em um espaço público tenho ao menos que ser público. Ou não, como diz Caetano.
Enquanto não resolvo se resolvo resolver, transcrevo um dos primeiros textos que escrevi, há algum tempo atrás, e que encaixa-se em termos no que até agora apareceu. No mais, bom resto de vida para aqueles que morrerão antes que eu escreva novamente.

E eis que surjo

Parece que é na madrugada que tenho minhas inspirações mais fortes. Não entendo o porquê do fenômeno, apesar de já ter ido a vários psicólogos, psiquiatras e outros muitos "psi", além do pai-de-santo, babalorixá e agiota Janguinho do Tarô. Alguns vieram com explicações freudianas, relacionando minha febre noturna com o meu horário de amamentação, outros afirmaram categoricamente: "só internando!".
Mas a cruel verdade é que estou destinado a ser mais um escritor noturno, dentre os tantos presentes no mundo literato. Não posso mais me iludir achando que um dia acordarei com os galos cantando, respirarei o ar puro matinal e, com as energias renovadas, sairei para observar as gotículas de orvalhos evaporando-se. Não, não posso pensar que verei as senhoras passeando com seus cães, as padarias abrindo. Não sentirei a fragrância do começo do movimento urbano, não sentirei em meu corpo os sintomas de um corpo saudável.
Do meu refúgio, verei a vida morta. A parte da existência secretada das mentes puras, inocentes. Enquanto no cérebro de considerável parcela de nossa população figurar sonhos, pesadelos ou simples repouso, estarei frenético, sustentado pela cafeína e possivelmente pela nicotina, além de jazer em um ambiente desagradável.
Esperem sim mentiras, hipocrisia, barbáries para com a literatura. Não espero nada do leitor além de desejar profundamente que seja minha privada pública, para que eu possa despejar todos os meus dejetos psíquicos sem no entanto ser obrigado a puxar a corda de descarga.
Claro, zelarei pela moralidade do leitor – apesar de considerá-lo imoral apenas por ler o que escrevo. Por fim, quero parabenizá-los por ler isso até o final. Poucos teriam coragem, visto que tudo é uma grande matéria fecal. Espero que não tenham odiado tanto o texto e que voltem; não serão, entretanto, bem-vindos.