quinta-feira, junho 3

Encenação

Acho que estou meio clichê. Hoje, por exemplo, pensei naquela famosa frase, cujo autor desconheço, “a vida imita a arte”. Como bom materialista sempre imaginei que fosse o contrário, que a partir da vida, ou da sua produção, é que a arte surgia. Porém, assistindo o noticiário pensei o contrário, devido a uma cena bastante peculiar ao jornalismo: quatro policiais aparecendo do lado de fora de uma casa, correndo, subindo uma escada e, finalmente, em frente a uma porta, os quatro, detiveram-se como esperando o diretor gritar “ação” (não descarto a possibilidade de que isso tenha de fato acontecido). Mas o que realmente chamou minha atenção foi quando o policial empunhou sua pistola, aproximou-a de seu peito e estendeu sua perna até a porta, abrindo-a toscamente. Não seria tão patético se um outro policial, ao seu lado, não tivesse girado a maçaneta. Não sei se está entre as tarefas da polícia federal assistir a filmes de ação hollywoodianos, mas certamente o que passou na cabeça dos “atores” – ou do diretor – foi estarem participando de um blockbuster.
Não sei se posso generalizar, mas, ultimamente, tudo e todos parecem estar dentro de um filme meio sem sentido, todos parecem tão artificiais dentro de suas naturezas, incluindo a mim. De uma certa forma parecemos todos estar decorando textos escritos por autores malucos, representantes do surrealismo, ou do cubismo, ou de qualquer outro “ismo”. Choramos como se fosse tragédia grega, rimos como nas comédias de Tchékov, estamos a qualquer momento a ponto de salvar o mundo ou nos apaixonarmos perdidamente pelas namoradas de nossos melhores amigos. Parece ter tudo virado uma grande telenovela mexicana, com seus Jorges Rodrigos e Marias Augustas, amando-se desde o início e ficando juntos apenas no último capítulo.
Diante desse quadro de profundo desespero, imagino que o melhor a fazer é ensaiar; por isso, quando me encontro sozinho, no banheiro ou um pouco antes de dormir, repito em voz baixa algumas falas, ensaio movimentos, marco minha posição no palco. Também peço, sempre que posso, para que o roteirista seja mais original, que busque novos elementos, enfim, que seja alternativo, para que o nosso espectador possa pensar um pouco enquanto ri e chora sem nada entender.